Da música no coração ao coração do Mika: a final da Eurovisão, canção a canção

Observador   15/05/2022 08:22

Fom, fom, fom, fom, fom, fom, fom, fom, fom… Douze points, twelve points, Eládio, bates forte cá dentro. Que comece a Eurovisão! O maior evento musical do Mundo (escusam de fazer essa cara, é facto) traz de volta o palco onde cabe tudo aquilo que se possa imaginar, incluindo uma cascata de água. Um exercício de enorme liberdade, mas nem sempre de bom gosto. Na verdade, como a vida.

A edição de 2022 teve Turim como palco e um trio na apresentação de onde se destaca a inefável Laura Pausini, que tem um lugar no meu imaginário de adolescência, na mesma prateleira do Pisang Ambon com laranja: deixa-me nostálgica e enjoada, ao mesmo tempo.

A acompanhar Laura Pausini temos Alessando Cattelan, o Jorge Gabriel deles, e Mika, por algum motivo que ainda não consegui identificar, mas fosse só isto que me deixa confusa na vida e estaríamos nós muito bem. Tenho também uma bonita memória associada ao cantor libanês: fazia parte do cartaz do Sudoeste no ano da graça de 2007 e costumo dizer que foi o melhor concerto de Mika que vi na vida, na medida em que ele cancelou a sua presença no famigerado festival, gesto pelo qual ainda hoje me sinto grata. Grande beijinho, Mika. Avancemos para a música que é o importa aqui… Mais ou menos.

Eletropop dançável, segundo Nuno Galopim. O nosso eurosabichão diz que tem um drinking game com um amigo, que o obriga a beber um shot cada vez que usa esta expressão e acrescentou que este ano não tem muitas oportunidades de botar abaixo. Uma vitória para o fígado de Galopim, uma derrota para os telespectadores, porque um comentador com falta de noção dá sempre uma graça… Enfiem esta carapuça no Sebastião Bugalho da vossa preferência.

Uma camisa arrancada ao vocalista a meio da canção, um corpo de baile cujos elementos masculinos estão mais desnudos, que os femininos. Achei refrescante.

Eu gosto da MARO antes da Eurovisão. Já a apreciava no tempo em que ela fez um dueto com o Eric Clapton. No tempo em que o Eric Clapton não era chalupa. Se me sinto moralmente superior a vocês por isso? Gostava muito de acreditar que sim, mas continuo a ver o Big Brother em 2022, acho que não tenho salvação possível.

Aquilo a que se chama uma rockalhada das antigas, na medida em que cheira a bafio que eu sei lá.

Chato que dói. E não digo mais nada, porque não te quero fazer chorar, Marius. Pareces-me aborrecido, mas não deves ser mau diabo.

Diz que estão a cantar em bretão, em homenagem às suas origens. A propósito, eu tinha um livro da Anita na Bretanha. Sei que isto foi uma informação absolutamente irrelevante, como acredito que seja a memória que vai ficar desta prestação.

O refrão reza o seguinte “Antes que aquele lobo coma a tua avó, dá-lhe uma banana”. Amor à família, quilómetros de lycra amarela e fruta rica em potássio. Está tudo certo.

Uma parede coberta de post its, uma mulher vestida de pijama, cheia de boas intenções, mas com resultados fraquinhos. Isto podia resumir não só a canção da Arménia, como a minha produtividade no primeiro mês da pandemia.

Canção muito forte ao nível do falsete, um dueto de que faz parte Mahmood, o notório segundo lugar, que se ficou pelo quase na edição de 2019. Lembrei-me de Ricardo, ex-guarda-redes do Sporting. Unam os pontos. Rebuscado? É a Eurovisão, peeps.

Enorme hype à volta desta canção. Não há outra maneira de o dizer: a Chanel é boa nas horas e não vai deixar que ninguém passe ao lado disso. A performance mete leque, hairflips em barda, fogo, vento e um espectáculo de luz nocivo para epiléticos. As Eurovision as you can get.

A minha música preferida desta edição, que teve sempre um total de zero hipóteses de ganhar.

Sim, vão ganhar. Sim, a música tem a sua graça. Não, não foi é por isso que vão ganhar. E só não digo que leram aqui primeiro, porque não estão sentados ao meu lado no sofá para terem essa oportunidade. Aí está a minha filha que não me deixa mentir, apesar de estar a dormir desde a canção da Arménia. E queria só acrescentar que um deles parece um Jamiroquai da Wish.

Chato que dói, parte 2. Mas com rap.

Primeira vez que a Lituânia chegou à final e foi uma surpresa. Nuno Galopim diz que ela lhe lembra a Mireille Mathieu, a mim lembrou-me o Toad do Super Mario. Esta só funciona se googlarem a imagem. Prometo que vale a pena. A canção nem tanto assim..

Cantou em inglês e eu percebi tudinho. E não, não é costume na Eurovisão.

Pareceu-me bem. É isso. Não tenho muito mais a dizer.

Mais uma baladonga, adornada por um outfit tipo Carrie antes de levar com um balde de sangue de porco em cima no prom. Bocejo número quê? Perdi-me nas contas. Fun fact: efetivamente, adormeci brevemente, neste momento, mas seguimos fortes.

Bocejo com chapéu de cowboy. Acabaram a atuação a o belo do coração com as mãos. Dizem que foi um apelo à paz. O Putin deve-se ter comovido pa’ car…

Deu para dar uma arrebitada e até dancei um pouco, devo confessar. Apreciei os acessórios tipo embraces de cortinado. Não se sintam inferiorizados por terem ido pesquisar o que são embraces. Sintam-se gratos por terem aprendido algo.

A enésima balada rock desta edição e neste momento estou com a mesma tolerância a este registo que a pessoas que dizem “ao final do dia”.

Dado o fuso horário, os australiano assistem a este evento à hora do pequeno-almoço. Quase tão descabido como a Austrália fazer parte da Eurovisão. O nosso Sheldon apresentou-se com uma tiara, cortina de talho com brilhantes no frontespício, uma rabona que faria inveja à Maria Antonieta e sofrimento.

Sou daquela espécie em vias de extinção que nem sempre tem uma opinião absolutamente definida. Chego a ter dúvidas, espantem-se. Este pequeno do Reino Unido tem um ar muito simpático de quem faz parte do elenco do Jesus Christ Super Star, não canta mal e a canção é meio catita. Mas também não sei se me enche as medidas, mas na miséria que isto está, filhas…

Juro que vi a semifinal em que a Polónia foi apurada e lembro-me zero desta canção. E neste momento, acho que já me esqueci outra vez. Se a banalidade pagasse IMI, mais valia o Ochman viver numa tenda da Quechua.

Eurovisão meets “Black Mirror” foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Mas fiquei de tal forma intrigada com esta performance, em que a vocalista passa três minutos ora a lavar as mãos ora a bater palmas, que fui pesquisar sobre o que é que rezava a música. And the plot thickens: é sobre o quão hidratado é o cabelo da Meghan Markle. Se melhorar, estraga.

Não tenhas esperança, Stefan, não vale a pena. Digo-te eu que já ando há muitos anos nisto.

Finalizado o desfile dos 25 candidatos, encheram-se chouriços vários, o Mika atuou e foi muito giro, especialmente se tiverem feito como eu que tirei o som da televisão. Já a Laura Pausini cantou o icónico “Volare” e foi bonito. E este elogio não contém vestígios de frutos secos ou ironia.

E, naquilo que foi a votação menos entusiasmante da história da Eurovisão, não é que ganhou a Ucrânia? Se isso me chateia? Zero. Agora, o Putin… É um grande abre-olhos, e ele vai-se passar… Agora sim, é ironia.

Considerações finais: o espectáculo foi meh e aquele palco a jorrar água, até para Eurovisão era too much. Quanto à apresentação, adorava comentar a prestação do trio, mas esta coisa da tradução simultânea que nos enfiam pela goela, não me dá grande margem. Sinto que lido com esta amálgama entre os apresentadores e o Nuno Galopim como lidaria com uma menáge à trois. Acredito nas boas intenções dos envolvidos, mas não consigo aproveitar bem nem uma coisa, nem outra.

Susana Verde é guionista

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